Seguir o plano

Por Lee Jones*

Embora as World Series of Poker estejam a decorrer a todo o gás, tenho a certeza que muitos de vós ainda se lembram daquela incrível mão na mesa final da European Poker Tour Grand Final, no Mónaco, há umas semanas. Aquela onde o Johnny Lodden faz raise pré-flop com um par de quinas... (É neste momento que tu e todos os leitores deste texto exclamam: "Oh! Se me lembro! Adorei essa mão!). Se ainda não a viste, vê agora com os teus próprios olhos:


Eis o cerne da questão: O Johnny Lodden montou uma elaborada armadilha a Adrian Mateos. O espanhol caminhou direitinho para a o centro da esparrela, mas no preciso momento em que Johnny se preparava para puxar a corda e fazer Adrian cair no buraco, desviou-se do seu plano e deixou escapar Adrian (com um bom punhado das suas fichas). Se nunca viste a mão (ou mesmo que já tenhas visto), isto é poker espectacular!

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Johnny Lodden na Grand Final

Adiante... No dia seguinte, quando me preparava para deixar o Mónaco, apanhei o shuttle para o aeroporto e, de repente, entra o Johnny Lodden. Dei-lhe os parabéns que se dão a alguém que acaba de ganhar €379K mas ficou muito perto de ganhar o triplo. Mas o sorriso do Johnny era tão brilhante como o sol do Mediterrâneo! Disse-lhe que tinha adorado aquela grande mão e a forma como a montou. O Johnny riu-se: "Lee Jones! Montei uma armadilha e caí no meu próprio embuste! Ainda peguei nas fichas no turn, por isso não me livrava de dar call no river".

E isso lembrou-me uma história, que passei a contar às duas pessoas que me acompanhavam no shuttle para o aeroporto...

Foi há 5 ou 6 anos - não me lembro ao certo e também não importa. Estávamos a jogar poker no apartamento do Rory, por cima de um restaurante de sushi (sim, é a sala de poker perfeita, se é que existe uma!). Acho que era $1-$2 Hold'em e eu tinha $300. Acordei com par de reis nas primeiras posições e subi para $7, só para começar. A acção chega ao Kenny e ele sobe para $20 sem pestanejar.

Deixa-me falar-te do Kenny. Um cavalheiro e um excelente ser humano em todos os aspectos. Vive em Asheville, Carolina do Norte, numa espécie de pré-reforma e retiro do frio do Norte, embora a sua pronúncia nova-iorquina nunca o tenha abandonado. Kenny instalou-se nas montanhas Blue Ridge como o nevoeiro de Outubro, com facilidade, e leva uma vida tranquila, vai a concertos, toma café nos bares da zona e bate os forasteiros em jogos de $2-$5 no Harrah's.

O Kenny é fiável como o nascer do sol - se chegares à casa onde se vai jogar e o Kenny ainda não estiver lá com o seu café, as pessoas começam a ponderar ligar para os hospitais da zona. E é fiável nas suas apostas. Se apostar no river e levar com um raise, ele estrebucha, amaldiçoa a sua pouca sorte e dá call. Com o segundo nuts!

Então ali estou eu, a olhar para os meus reis, e o Kenny (que tem mais dinheiro atrás do que eu) acaba de me dar uma 3-bet - pode fazê-lo com Valetes, mas duvido.

Todos fazem fold até mim. E eu preciso de um plano!

OK, eu tenho um plano! Vou subir para $70. Se o Kenny fizer uma 5-bet, estamos de volta a 1986 e são ases 100% das vezes. E então foldo. Faço um discurso e faço fold mostrando as cartas. O Kenny entra num tilt épico, o pessoal à volta da mesa aplaude-me de pé e se calhar fazem uma chapa dourada com o meu nome para fixar na minha cadeira.

Subo para $70. O Kenny faz um compasso de espera, suspira, e diz "parece que estou all-in!"

E é nesta parte da história, quando estou a contá-la no shuttle para o aeroporto, que o Johnny Lodden interrompe: "Espera! Ele suspirou? Ele suspirou?!?!?!?! Isso é snap fold!" Depois, semicerrou os olhos na minha direcção... "Deste call, não deste?"

Sim, Johnny - dei call! Não sei porquê - talvez pelo seu compasso de espera. Talvez porque nunca antes largara Reis pré-flop. E sabe Deus se terei outra oportunidade de o fazer. Mas elaborei um plano e executei-o na perfeição... até ao último passo.

Por isso tenho imensa empatia com o Johnny Lodden. Quer dizer, jamais conseguiria elaborar um plano tão inteligente e sofisticado como ele fez contra o Adrian Mateos, mas mesmo os meus simples planos, por vezes, são demasiado para mim.

A dificuldade da vida está em reconhecer quando nos devemos desviar do plano original, em oposição às vezes que dizemos a nós mesmos "Este era o meu plano, continua a ser e vou com ele até ao fim".

Como é interessante, o poker (e a vida)!

*Lee Jones é Director de Comunicação da PokerStars e está envolvido no mundo do poker profissional há mais de 25 anos. Podes ler os seus tweets ocasionais em @leehjones.


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