História do Blackjack: de Vingt-et-Un a 21
Descubra a fascinante história do blackjack, desde o “Vingt-et-Un” até ao popular jogo de casino que conhecemos hoje.
Entre em qualquer casino hoje e verá a mesma cena: mesas cheias, jogadores debruçados sobre as mesas, todos à procura do número mágico: 21.
Parece intemporal, mas há apenas alguns séculos, o jogo nem sequer existia. Não havia dealers com coletes, nem regras uniformes, apenas jogos de cartas espalhados pela Europa com um simples objetivo: chegar o mais perto possível de um número sem o ultrapassar.
O caminho desde esses inícios humildes até às elegantes mesas de hoje está cheio de reviravoltas.
Santos tentaram bani-lo, escritores imortalizaram-no, imperadores ficaram obcecados e os matemáticos decifraram-no. Acredite, é uma história fascinante.
Jogos de números antigos
Algumas gostam de dizer que os soldados romanos foram os primeiros jogadores de blackjack, jogando com blocos numerados nos acampamentos. Talvez.
Os romanos adoravam apostar, sem dúvida, mas não existe uma ligação direta entre os seus passatempos e o jogo atual.
O que sabemos é isto: por volta de 1400, a Europa estava viciada em jogos de cartas com objetivos numéricos.
O mais popular era o Trinta e Um. Tiravam-se cartas, o objetivo era chegar a 31 sem ultrapassar. Simples.
O primeiro registo conhecido data de 1440, quando um monge italiano, Bernadino de Siena, o denunciou nos seus sermões.
Detestava o jogo, tentou proibi-lo e acabou por ver jogadores a atirar baralhos às fogueiras. Ironicamente, mais tarde tornou-se o santo padroeiro dos jogadores. É inacreditável, não é?
Mesmo assim, o Trinta e Um continuou a espalhar-se. Os ases valiam um, as figuras dez e as restantes cartas mantinham o valor nominal.
As regras eram precisas, o jogo era rápido e uma carta a mais podia decidir tudo. Soa familiar?
Cervantes e a mudança de Espanha
Depois, algo aconteceu em Espanha. E a pessoa que nos deu a prova? Miguel de Cervantes. Sim, o autor de Dom Quixote.
Em 1613, Cervantes escreveu sobre batoteiros que viviam de um jogo chamado veintiuna – que significa “vinte e um”. Jogavam em tabernas, nas estradas e com truques pouco honestos.
A diferença aqui era o alvo: já não era 31, mas 21.
Os ases ainda valiam apenas um, pelo que era necessário ter pelo menos três cartas para atingir o número mágico.
Mais lento, é certo, mas matematicamente mais equilibrado. O 21 criava decisões mais difíceis, mais tensão e, no fim, mais diversão.
Toque francês
Avançando até 1700, os franceses adotaram o jogo e chamam-lhe Vingt-et-Un. Acrescentaram uma regra que mudou tudo – os ases podiam valer 1 ou 11.
Foi o nascimento do “21 natural” com duas cartas. De repente, o jogo deixou de ser uma construção lenta e tornou-se instantaneamente emocionante.
Os casinos franceses moldaram grande parte daquilo que hoje reconhecemos no blacjack. Por exemplo, os dealers tinham de seguir regras fixas e os jogadores podiam ver uma das cartas do dealer antes de agir.
Pense nisto: esse equilíbrio entre justiça e estratégia continua a ser a base do blackjack moderno.
Dizem os historiadores que até Napoleão era fã. Jogava durante as campanhas e no exílio, tratando o jogo como um exercício mental.
Naturalmente, como acontece sempre em França, a alta sociedade seguiu o exemplo. Até escritores como Jane Austen o mencionam como um passatempo elegante. As salas de estar fervilhavam com mesas de Vingt-et-Un, onde mulheres e homens jogavam juntos, algo invulgar para a época.
Atravessar o atlântico
Os franceses levaram o Vingt-et-Un para a América nos anos 1700. Mas quando chegou a Nova Orleães, a elegância desapareceu rapidamente.
O jogo adaptou-se perfeitamente aos barcos fluviais, aos saloons e aos campos de mineração de ouro. As regras mantiveram-se, o ambiente tornou-se mais áspero.
Em meados do século XIX, o Vinte e Um já estava por todo o lado na América. Do rio Mississipi aos campos de ouro da Califórnia, era o jogo de cartas que refletia o ritmo da vida no oeste: rápido, arriscado e fácil de montar em qualquer mesa gasta.
Madame Moustache e o velho oeste
Se ainda houver dúvidas sobre a popularidade do jogo, basta conhecer Eleanor Dumont. Em 1854, abriu uma mesa de Vingt-et-Un em Nevada City, em 1854 e geria-a com refinamento europeu.
Os jogadores tinham de tirar os chapéus, controlar a linguagem e jogar limpo. Os mineiros respeitavam-na e a honestidade tornou-a famosa.
Mas a vida no oeste era impiedosa . Com o tempo, perdeu a juventude e ganhou a alcunha cruel de “Madame Moustache” (Senhora Bigode).
Morreu em 1879, mais uma jogadora vencida pelas duras realidades do jogo. Ainda assim, a sua história mostra o quão enraizado o Vinte e Um estava na cultura americana.
Como o “Blackjack” ganhou o nome
No início dos anos 1900, os casinos de Nevada precisavam de atrair jogadores, e um deles ofereceu um bónus especial a quem fizesse 21 com o Ás de Espadas e um Valete preto (black Jack).
O pagamento de 10 para 1 durou pouco, mas o nome ficou.
Pouco depois, o Vinte e Um passou a ser chamado de blackjack. E quando Nevada legalizou o jogo em 1931, o nome e o jogo tornaram-se ícones dos casinos.
O professor que quebrou o jogo
Durante séculos, acreditava-se que o blackjack dependia de sorte com uma pitada de instinto. Até que Edward Thorp, professor de matemática no MIT, revolucionou tudo.
Em 1962, publicou Beat the Dealer, o primeiro livro a provar que o blackjack podia ser vencido com estratégia. Contar cartas não era mito e ele podia provar que funcionava.
Thorp utilizou os primeiros computadores para calcular probabilidades. Testou o sistema em Las Vegas e saiu com lucros, deixando os casinos em alvoroço. Dealers passaram a baralhar mais vezes, usar vários baralhos e a mudar o ritmo do jogo.
O resultado? O livro acabou por render mais dinheiro aos casinos.
Porquê? Porque todos acharam que conseguiam contar cartas. A maioria não sabia… mas tentaram, falharam e perderam.
Entretanto, os poucos que tiveram sucesso? Os casinos baniram-nos.
O jogo moderno
Os casinos aprenderam a defender-se. Sapatos com vários baralhos tornaram-se padrão e as máquinas de baralhar contínuas tornaram a contagem quase impossível. Ainda assim, o blackjack manteve o encanto.
Com a chegada da Internet, nos anos 90, o blackjack online eliminou a necessidade de viajar até Las Vegas para jogar.
Pouco depois, os jogos com dealer ao vivo, como os que encontra aqui no Casino PokerStars, combinaram o mundo digital com cartas reais, permitindo-lhe jogar a partir de casa com um rosto humano no ecrã.
Blackjack em todo o mundo
Hoje existem dezenas de variantes: Spanish 21, Blackjack Switch, Pontoon, Premium Blackjack… e a lista continua. Cada uma altera pequenas regras, mas mantém a essência: vencer o dealer sem ultrapassar o limite.
Cada cultura deixou a sua marca no blackjack. É por isso que o encontrará em casinos de Macau a Monte Carlo, com variações locais e apostas paralelas.
Ao sentar-se numa mesa hoje, está a partilhar a mesma emoção que cativou Napoleão, inspirou Madame Moustache e transformou Edward Thorp numa lenda.
As regras podem evoluir e mudar, mas o apelo do blackjack mantém-se: habilidade, sorte e a interminável busca por aquela mão perfeita.